Travesti bissexual doutoranda na Unicamp lança livro sobre experiência como prostituta

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Amara Moira é formada em Letras e prepara tese sobre James Joyce

Amara Moira: voz que ecoa na academia, na militância, na literatura e nas ruas – Divulgação / Bruno Trevisan Dini

Ela só assumiu sua condição de travesti bissexual há três anos. Criada nas proximidades da Universidade de Campinas e filha de advogado, cresceu cercada de livros e formou-se em Letras. Seu interesse se concentrou no viés obsceno de grandes autores como Marquês de Sade, Gregório de Mattos, Bocage e Hilda Hilst, mas sua obsessão é por James Joyce, objeto de sua tese de doutorado. Paralelamente, lança seu primeiro livro, “E se eu fosse puta” (Hoo Editora, com tirinhas exclusivas de Laerte, lançamento carioca terça-feira, na Cultura), que narra, com cadência poética e conteúdo radicalmente explícito, suas experiências como prostituta. Foi o único caminho em que encontrou espaço para desenvolver-se afetiva e financeiramente. Mas longe da posição de vítima: com muito prazer, aliado da dor. Nesta entrevista feita por e-mail, as principais vertentes de uma inteligência complexa, esclarecida e engajada.

Do que trata sua tese de doutorado?

Estudo o “Ulysses” de James Joyce, em especial momentos da obra que resistem, se recusam a fazer sentido, as zonas de indeterminação que isso gera e de que maneira seus tradutores lidaram com isso. A pesquisa vai apontando uma nova camada de sentidos muito ouco conhecida, mostrando que o grau de controle que Joyce detinha sobre a obra vai muito além do imaginado.

Onde você nasceu? Que criança você era? Qual seu nome de batismo?

Não fui batizada. Nasci em Campinas, em Barão Geraldo, bairro da Unicamp. Nos anos 1980/90 aquilo era o fim do mundo, um matagal. Eu era uma criança introspectiva, fechada, mais dada aos livros do que ao convívio social. Sofri muito bullying na escola, a nerd, péssima nos esportes, última a ser escolhida na educação física. Sou filha da classe média, mas meus pais fizeram Direito, davam importância aos livros. Fui a maior leitora das bibliotecas de escolas onde estudei, o que era motivo de exclusão mas, na universidade, foi vital para me impor. Como nunca fui uma criança feminina, consegui evitar a violência.

E a sexualidade?

Percebi adolescente que eu era capaz de me relacionar com homens e mulheres, mas só com 16 tive as primeiras experiências com ambos. Gostar de homens sempre me deixou em crise. Sou fruto de uma sociedade homofóbica e nunca consegui superar os traços que deixou em mim. Só depois de me assumir travesti (e, por favor, “a” travesti, no feminino), passou a ser uma questão tranquila.

De que modo se deu a decisão?

A descoberta de que o gênero que me impuseram não era a maneira como eu queria viver foi mais demorada. Ninguém nunca me disse que eu podia ser outra coisa ou ter dúvidas. Foi na marra, a coragem das pequenas decisões, vestir uma saia em público, passar esmalte, deixar o cabelo crescer… Tudo isso só consegui fazer quando entrei para a militância LGBT há três, quatro anos, como bissexual. Ao conhecer na universidade pessoas trans respeitadas, superei meu maior medo: da noite para o dia, perder família, amigos, direito de estudar, de ter um emprego que pudesse ser chamado de emprego e não a única opção que permitem às travestis: prostituição.

Como soava essa perspectiva?

Medo. O medo de viver das migalhas que pagam às travestis, do estigma, da exclusão, fez com que eu me forçasse por anos a caber naquele modelinho de homem padrão. Só dois anos e meio atrás consegui finalmente pedir para a primeira pessoa me chamar de Amara. Foi no dia primeiro de maio de 2014, quando vim para o feriado prolongado da Parada LGBT em São Paulo só com as roupas femininas que comprei na véspera. A partir dali, não teria mais volta: eu não me permitiria mais me reprimir por medo.

Por que seus relatos vêm todos da experiência como prostituta?

A prostituição é uma de minhas fontes de inspiração. Meu doutorado é em Literatura. O medo da prostituição retardou minha transição, mas, quando me assumo Amara e militante, percebo que as figuras que lutaram para que eu hoje pudesse existir pagaram com a vida por serem travestis ou viveram vidas absurdamente sofridas, eram quase todas prostitutas. Pessoas me tratavam como prostituta mesmo eu não sendo, por me verem travesti. Homens só se permitiam flertar comigo, dizer que eu era bonita, quando eu estava no bairro de prostituição onde minhas amigas viviam. Não havia muito espaço para relações afetivas, ou para me sentir bela. Começar a me prostituir era então, em algum grau, o que esperavam de mim, e o que estava ao meu alcance para não enlouquecer, especialmente quando ainda estava tão frágil, dando os primeiros passos como Amara. E o dinheiro me ajudaria a acelerar o processo.

Você ainda faz programa?

Tive um problema médico e demorei para me dar conta disso, continuei insistindo por não perceber a gravidade (parecia que era frescura minha ou falta de prática) e só piorei. Hoje estou me recuperando, esperando a próxima consulta médica para saber se já estou liberada. Por conta disso, não trabalho há meses.

E como ganha a vida?

Tenho uma bolsa de doutorado na Unicamp que paga minhas contas. Até o final do ano ainda a recebo, mas a partir do ano que vem precisarei descobrir outra forma de fazer dinheiro (e dentre elas estará a prostituição com certeza).

Onde fica o amor, nisso?

Capa do livro ‘E se eu fosse puta’, de Amara Moira– Reprodução

Enquanto eu me prostituía, me apaixonei por um cliente, mas é difícil sustentar um amor quando te tratam tão mal, só te querem na sombra. Para minha sorte, sou bissexual e estou namorando uma mulher cisgênero (cujo gênero é o mesmo registrado no nascimento) que amo muito, que nunca teve vergonha de mim nem do fato de eu ser prostituta.

Você extrai prazer da prostituição?

A prostituição, por muito tempo, era a forma de eu me sentir bonita, desejada, de viver o afeto. Sinto muito prazer em transar, especialmente com anônimos, mas me desgasta o fato de nos tratarem tão mal, seja por transfobia, seja por terem gozado e já não conseguirem mais aceitar o desejo. Fora isso, a prostituição me força a escrever, me mostra a urgência de transformá-la em texto, talvez porque tenho cabeça de escritora e não sei entrar numa situação extrema e não imaginar de cara como ela ficaria no papel.

Você fez alguma intervenção? Você entrou com processo para ter reconhecida a identidade de gênero?

Tomo hormônios há dois anos e fiz operação de fimose na adolescência. Não tive nenhuma vontade de enfrentar essa burocracia infernal. Enquanto não consigo, vou tentando bugar o sistema até que ele próprio perceba o absurdo que impõe às pessoas trans.

Fale sobre o seu primeiro livro e sobre seu autores preferidos.

O livro conta, em primeira pessoa e numa linguagem que se quer poética, melódica, minhas experiências enquanto prostituta e os primeiros passos que dei como Amara. São depoimentos impactantes, pesados, mas creio que o jeito de narrar acaba trazendo o leitor pra dentro do jogo e o fazendo viver a história junto comigo. James Joyce é com certeza o autor que mais me influenciou, mas fui estudiosa de poesia obscena por muito tempo, desde a medieval, das cantigas de escárnio e maldizer, até a dos dias de hoje, de Hilda Hilst e Glauco Matoso, passando por Gregório de Matos, Bocage e Marquês de Sade. Sempre fui mais da poesia, mas Joyce me ensinou que a prosa pode ser poética também e que as duas coisas podiam andar juntas.

Que tal Campinas?

Passo bastante tempo em São Paulo por ser a terra da minha namorada (que se chama Terra, aliás). Mas a Campinas em que vivo é a de Barão Geraldo, distrito da Unicamp, conhecido como a Terra do Nunca por ser uma bolha à parte da sociedade, muito mais disposta a aceitar contestações e desregramentos. Talvez por isso transicionar lá me deu segurança e a paz de que eu necessitava. Lá também o movimento trans é forte, criamos o primeiro Coletivo Trans de uma universidade brasileira, o TransTornar.

Você consegue encarar a prostituição com distanciamento?

A mulher é criada para não ter desejo, ser casta. Quando não se enquadra, vira alvo de violência. Imagine a “vida fácil” de uma prostituta… A misoginia, o racismo, a xenofobia, a transfobia e a pobreza fazem dessa atividade algo bastante perigoso. Pode ser diferente se entendermos o quanto o sexo é importante e profissionais do sexo forem respeitadas. Mas não. O machismo joga as esposas contra nós, os homens nos usam para saciar desejos inconfessáveis (envolvendo o ânus ou passividade, que não assumem nem para a própria sombra), cafetões e policiais tiram proveito da nossa falta de amparo social. Podíamos ser educadoras sexuais, ser contratadas pra ensinar pessoas a transar, mas não: esse saber que trazemos não pode ser valorizado e somos tratadas como um buraco, e não gente.

E a prostituição trans?

Termos opções para além da prostituição é uma das prioridades do movimento trans, mas junto com isso é fazer da prostituição um espaço menos violento, menos hostil, pois é no exercício da atividade que no mais das vezes somos mortas, agredidas. Trabalhar na rua, uma das únicas formas de prostituição para travestis, é estar sob risco… Mulheres cis costumam ter melhores condições de trabalho do que nós e ganham mais.

O que é, para você, gênero?

É a ferramenta para entendermos como as forças estão divididas na nossa sociedade. Banheiro por gênero não surge só por diferenças biológicas, mas por questões de segurança. A mulher não é mais fraca do que o homem; ela é criada para ser mais fraca, ter medo de dor, usar calçados e roupas que dificultam movimentos, não desenvolver força física nem habilidades de defesa. O homem é criado para testar limites, cair e já levantar, arrebentar o corpo, invadir, explorar, conquistar. É toda uma revolução romper com isso, mas enquanto não é possível, a gente precisa criar formas de proteger pessoas criadas para serem vulneráveis. Gênero tem que ver com isso. Não é só o que você acredita que é, ou diz, mas a forma como é visto. O fato de eu ir na padaria e ser tratada no feminino, perguntar onde é o banheiro e indicarem o feminino, é indicativo de que mais travestis e trans estão conseguindo transformar os sentidos das palavras homem e mulher.

Há quem diga que cada um é um. Que há sete bilhões de gêneros.

Vejo de outra forma. O discurso do “todo mundo é diferente” faz com que não consigamos entender a origem das opressões. Você é capaz de dizer que o mundo é igual para negros e brancos? Mulheres e homens? Ricos e pobres? É importante pensar o que nos une e o que nos separa. Gênero é categoria analítica da sociedade, não um mero rótulo.

O quão mais lucrativo é ser prostituta e ter um nome público?

Nome público é ótimo, mas não para ativistas. Imagina um figurão cruzar comigo no shopping, na Câmara Municipal? Quanto mais conhecida a travesti é, mais consegue repercutir discurso crítico, feminista, e mais temerário é alguém contratar seu serviço. Desde que me fiz militante e ganhei visibilidade, meus clientes diminuíram drasticamente. A maioria não gosta de puta de esquerda.

Um teórico francês se refere à prostituição como uma das grandes utopias civilizatórias. Não há cobrança (além do dinheiro), não há mentira (ela faz parte do acordo) e a fantasia se realiza. Que é a relação mais honesta, e há o risco de se ter uma boa conversa.

Acho que você vai gostar do meu capítulo final. A prostituição me permitiu ver os homens sem as máscaras que carregam vida afora, homens frágeis, apaixonados, querendo explorar regiões do corpo e prazeres nunca permitidos, homens em conflito, homens inconsequentes, homens violentos. A prostituta vê o homem mais real, vê o homem que a sociedade de fato criou, daí sua importância. Querem saber como eles são? Perguntem para nós. Mas é ilusão acreditar nesse conto de fadas que a pergunta propõe… O estigma e as diversas opressões que a prostituta vive fazem com que ela esteja sempre a perigo na profissão.

Fonte: Travesti bissexual doutoranda na Unicamp lança livro sobre experiência como prostituta – Jornal O Globo