O sonho público em Barão Geraldo

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É muito apropriado que se busque nos Estados Unidos um modelo de urbanização para um condomínio que se chamará Dom Pedro. O imperialismo dos responsáveis pelo megacondominio que potencialmente será construído às margens da rodovia Dom Pedro I, em frente ao shopping de mesmo nome, foi chocante, do início ao fim da audiência pública do dia 10 de abril de 2012, no Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Imperialismo sob diversas formas.

Começou pela faixa propagandística e mentirosa estampada na mesa da organização da audiência, que por lei é composta por representantes de órgãos públicos, sugerindo-se uma cumplicidade esperada, a luz das últimas alterações de atribuição entre a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambienta (Cetesb), que visam “dar mais agilidade ao processo de aprovação de empreendimentos”. Dispunha a faixa: “Audiência pública para aprovação da Gleba A2”, quando se trata de umaavaliação. Não menos audacioso que os dois ônibus de belas e bem vestidas funcionárias que trouxeram da empresa para integrar a plateia.

Em seguida, falaram apenas de uma parte do projeto da propriedade, prática que contraria a legislação que exige integralidade no trato de loteamentos, mesmo nesta metade apresentada faltou definição clara sobre como ocorrerá a ocupação ao longo do tempo, quais obrigações dos adquirentes dos futuros lotes, ferindo, inclusive, eventuais consumidores que possam adquirir as áreas.

Além destes fatores mais formais e jurídicos da audiência, tem-se que o projeto falha ao colocar bacias de contenção de águas pluviais em locais que hoje são brejos (contenções naturais); falha ao não explicar como as demandas por novas escolas e postos de saúde serão resolvidas, qual o verdadeiro impacto no trânsito local (não mostraram nenhum número); considera a mata de Santa Genebrinha uma parte do empreendimento, quando na verdade está em processo de tombamento, e ao lado da mata irão colocar uma estação de tratamento de esgoto, não apresentaram estudo de impacto de vizinhança (Barão Geraldo), reduziram o coeficiente de ocupação de 4,0 (padrão) para 3,5, para facilitar o processo de aprovação e assim por diante.

Um show. Os moradores de Barão deram uma aula de comprometimento com a cidade, pelo embasamento técnico e principalmente: pela paixão que demonstraram em relação à mata Santa Genebrinha, à fauna, à flora e à conservação do pouco que existe de mata atlântica. O empreendimento foi enfaticamente rechaçado em 100% das falas populares. Às vezes ao juridiquez e outras no ambientalez, a totalidade dos baronenses e amigos de  Barão contrariaram o senso de que o monstro urbano objeto da audiência pública seria viável.

Se os empreendedores queriam construir algo que insinuasse um pequeno município, que estimulasse a caminhada ao invés do automóvel, e queriam conservar a mata de Santa Genebrinha, não precisavam ter ido ao exterior buscar um modelo norte-americano, nem francês, nem nada… poderiam ter ido num local muito mais interessante, onde a se pensa em sustentabilidade diariamente nas universidades, onde prevalece um ambiente mais calmo e há grandes especialistas em geologia, química, engenharia etc. Este local é Barão Geraldo, com seus bairros aconchegantes e população comprometida.

Não existe aversão pelo crescimento de Barão, mas sim uma luta por um crescimento racional, sustentável e que conserve as características do local. Defende-se um modelo de cidade e, pelo averiguado, o modelo baronense de cidadão também precisa ser defendido, pois são militantes, guerreiros com base científica.

por Manoel Martins

Fonte: O sonho público em Barão Geraldo – Gestão Pública.net : Gestão Pública.net