No Dia de Finados, ‘milagreiros’ são lembrados em cemitério de Campinas

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Maria Jandira e Toninho Escravo estão entre os mais homenageados.Placas de agradecimento por ‘graça alcançada’ permeiam as sepulturas.

Placas agradecem por graça alcançada em Campinas (Foto: Arlete Moraes/ G1)Placas sinalizam graça alcançada no túmulo de Maria Jandira em Campinas (Foto: Arlete Moraes/ G1)

O Dia de Finados no Cemitério da Saudade, em Campinas (SP), é marcado por fé e devoção. Mas, além da visita aos entes queridos, muitos aproveitam a oportunidade para deixar mensagens de agradecimento nos túmulos de personalidades consideradas “milagreiras”, uma tradição que passa gerações. Maria Jandira e Toninho Escravo estão entre os que mais recebem homenagens por “graças alcançadas”.

O aposentado Pedro Pascoaneli, de 75 anos, há 40 anos vai até o local para visitar o túmulo de Maria Jandira e afirma que a jovem concede graças a quem tem fé. “Venho visitar a Maria Jandira. Eu acredito sim. Eu já pedi coisas pra ela e alcancei. Já tive graça concedida”, conta.

Quando venho trago flor e acendo vela. Eu peço para dar saúde”
Italle de Paula Viotto, artesã

Já a artesã Italle de Paula Viotto, de 63 anos, explica que a fé em Maria Jandira foi uma tradição passada pela mãe.

“Ela falava da Maria Jandira, dizia que ela era uma moça muito bonita e disse que ela tinha namorado e ia casar. Só que ela comprou álcool, deitou na cama e tacou fogo. Ela visitava e trazia a gente toda a segunda-feira, era marcado, desde pequenininha […] Quando venho trago flor e acendo vela. Eu peço para dar saúde”, revela.

Pedro durante uma visita no túmulo de Maria Jandira (Foto: Arlete Moraes/ G1)Pedro Pascoaneli durante uma visita no túmulo de Maria Jandira (Foto: Arlete Moraes/ G1)

Maria Jandira
Segundo o jornalista e escritor Élcio Henrique Ramos, autor do livro “Muito além da Saudade”, que conta a história do cemitério, Maria Jandira dos Santos nasceu no dia 8 de maio de 1911. A jovem, sem posses e abandonada, não tinha recordações de infância e nem como se sustentar, por isso, já muito cedo foi parar numa zona de prostituição.

“Um grande amor mudaria os rumos de sua vida. Aos 23 anos ela fazia planos, sonhava com uma nova vida, mas seu amor era um homem misterioso que, com o passar a abandonou. No dia 24 de maio de 1934, Jandira foi sepultada no cemitério da Saudade. Sua morte foi violenta, derramando álcool sobre a cama e ateou fogo”, conta.

Eu deixo sempre um botão vermelho pra ele, e ofereço um Pai Nosso e uma Ave Maria”
Lúcia Crivelare Bueno, dona de casa

Ainda segundo o escritor, cerca de 20 anos após sua morte, começaram a surgir as primeiras homenagens por graças recebidas.

“E atrair grandes romarias”, afirma. Essas peregrinações no túmulo de Maria Jandira, em 1956, chegaram, inclusive, a ser noticiadas por jornais da capital na época.

Mas, as romarias incomodavam a sociedade campineira da década de 50, que considerava um absurdo uma prostituta receber tanta visitação. “A sociedade era avessa a isso […] retiravam as placas do túmulo”, explica.

Toninho Escravo
Outro túmulo muito visitado no Cemitério da Saudade é o de Toninho Escravo, que fica logo na entrada do recinto. Placas de agradecimento por “graças alcançadas” estão por toda a sepultura e até no chão.

A dona de casa Lúcia Crivelare Bueno afirma que sempre que vai ao cemitério passa pelo túmulo dele para prestar homenagem. “Eu deixo sempre um botão vermelho pra ele, e ofereço um Pai Nosso e uma Ave Maria. Sempre que venho trazer flores para os meus parentes, eu deixo um botão de rosa pra ele. Nunca pedi nada, mas acredito que ele pode fazer milagre”, afirma.

Lúcia prestando homenagem no túmulo de Toninho Escravo (Foto: Arlete Moraes/ G1)Lúcia prestando homenagem no túmulo de Toninho Escravo (Foto: Arlete Moraes/ G1)

Segundo Ramos, Toninho faleceu no dia 13 de março de 1904. Apesar de ter sido escravo, conheceu a liberdade em vida. Ele trabalhava como cocheiro do Barão Geraldo de Rezende, importante figura política de Campinas, na fazenda Santa Genebra e mantinha uma amizade incomum para época com o patrão.

Teve um incidente onde o barão sofreu uma tocaia e ele salvou o barão”
Élcio Henrique Ramos, escritor

O jornalista conta ainda que o escravo, inclusive, salvou a vida do barão. “Teve um incidente onde o barão sofreu uma tocaia e ele salvou o barão”, afirma.

Toninho sobreviveu e a família do barão ficou grata pela lealdade do escravo. Tanto que após sua morte, eles compraram um terreno no cemitério para que ele fosse enterrado ao lado do patrão, que morreu três anos depois.

Ele só não foi enterrado na mesma sepultura do barão por causa da polêmica gerada na época por essa proximidade entre um escravo e um barão, mas isso não impediu Tonhinho de virar um “milagreiro”.

“Ele [Toninho] ficou conhecido por curar doenças. Ainda hoje é o túmulo mais visitado […] E na Saudade, na alameda principal, os dois permanecem lado a lado”, explica.

Fé e tradição
No entanto, essa tradição dos “milagreiros”, que é passada dos pais para filhos, têm diminuído nos últimos tempos. “Houve uma diminuição e tende acabar […] Talvez a minha geração, por volta dos 40 anos, seja uma das últimas”, pontua.

Ramos lembra ainda que tanto Jandira quanto Toninho Escravo foram, de alguma forma, discriminados em vida. Por isso, essa devoção funcionaria também como uma espécie de redenção. “De forma inconsciente, a sociedade busca compensar o que no passado foi feito. Assim, o ciclo da vida continua a renovar-se mesmo após a morte”, finaliza.

Placas são colocadas para agradecer graça alcançada (Foto: Arlete Moraes/ G1)Placas são colocadas para agradecer graças alcançadas (Foto: Arlete Moraes/ G1)

Fonte: G1 – No Dia de Finados, ‘milagreiros’ são lembrados em cemitério de Campinas – notícias em Campinas e Região