Estado planeja Polícia Militar comunitária para a Unicamp

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O sistema de segurança, inspirado no mesmo aplicado no Japão, terá efetivo fixo da Polícia Militar (PM) especialmente treinado para as atividades da universidade, diferentemente do patrulhamento ostensivo

Veículo é parado em um dos acessos à Unicamp; entradas e saídas do campus são controladas por agentes

Veículo é parado em um dos acessos à Unicamp; entradas e saídas do campus são controladas por agentes
O secretário de Estado da Segurança Pública (SSP), Alexandre de Moraes, afirmou na semana passada, que está acelerando a implantação do policiamento comunitário na Universidade de São Paulo (USP) e que o modelo será estendido à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O sistema de segurança, inspirado no mesmo aplicado no Japão, terá efetivo fixo da Polícia Militar (PM) especialmente treinado para as atividades da universidade, diferentemente do patrulhamento ostensivo comum que já existe.
A declaração foi dada um mês depois de uma estudante de 17 anos da Faculdade de Economia e Administração ter sido estuprada no campus da USP. A presença de PMs em universidades públicas de São Paulo é polêmica e enfrenta forte resistência de grupos acadêmicos. Os motivos estão na história recente brasileira: durante a ditadura militar, policiais fardados e à paisana se espalhavam pelos campi das principais universidades do País para reprimir supostas atividades subversivas.
Na Unicamp, estudantes ocuparam a reitoria por 13 dias em outubro de 2013, em protesto contra a atuação da PM nos campi. O ato ocorreu logo após a morte do aluno Denis Casagrande, de 21 anos, durante uma festa na universidade. À época, os discentes pediram que fosse montada uma guarda universitária humanizada, composta inteiramente por funcionários concursados, sem terceirizados ou PMs. A SSP informou que ainda não há prazo para que o policiamento comunitário seja implantado na Unicamp.
O modelo defendido pelo Estado divide as opiniões de especialistas em segurança pública consultados. Enquanto uma vertente acredita que a presença da PM na faculdade é essencial para segurança de estudantes, professores e funcionários, outro veem com ceticismo o modelo, aplicado anteriormente em bairros da Capital, mas sem resultados satisfatórios permanentes.
Moraes afirmou que, com o novo modelo, o número de policiais deve pelo menos quadruplicar. Hoje, a Cidade Universitária da USP tem 22 PMs que circulam até as 23h. A ideia é que a universidade tenha de 80 a 100 policiais fixos, que estejam integrados às rotinas da comunidade acadêmica. “Nós teríamos uma companhia específica para o campus, policiais militares que estão sendo treinados especificamente para policiamento comunitário”, explicou o secretário.
O policiamento será integrado ao monitoramento com câmeras e a direção da USP já teria recebido as especificações técnicas para a compra do equipamento, segundo Moraes. Ao todo, seriam 638 novas câmaras. Hoje, a Cidade Universitária conta com 59. As tratativas para a implementação do novo modelo começaram em janeiro, de acordo com o secretário, e diversas reuniões foram feitas como o Diretório Central dos Estudantes (DCE). O presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP, José Gregori, estaria intermediando o diálogo entre estudantes e SSP.
O Correio tentou contato com o DCE da Unicamp para se posicionar sobre o novo policiamento, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
Em nota, a Unicamp informou que implementou em 2013 o Programa Campus Tranquilo, em resposta aos casos de violência e morte dentro da universidade.
Segundo o texto da Unicamp “uma das propostas já implementadas é a organização de eventos culturais em final de tarde e início da noite no campus”. A assessoria de imprensa da universidade disse ainda que há propostas envolvendo atividades físicas. No aspecto preventivo, a Unicamp afirma que “ações estão em andamento para aumentar o número de postos fixos de vigilantes, melhoria da iluminação e monitoramento por câmeras, além da intensificação da poda de árvores”. Porém, a nota não informa quando as ações serão concluídas.
Estudantes, professores e funcionários da Unicamp têm opiniões diversas sobre a polícia no Campus. O aluno de administração Danilo Crispim Strioto, de 30 anos, é contra o aumento do número de câmeras e de policiamento e alega que essas medidas distanciam, ainda mais, a sociedade da universidade. Como solução para os inúmeros casos de violência no campus, Strioto aposta na ação dos estudantes. “O problema pode ser resolvido através das militâncias e da educação da população como um todo. O que fazemos na universidade tem que ser expandido, para que sejam feitos projetos que vão além dos muros do campus. A sociedade tem que participar dessa construção”, explica.
German Tamayo Osório, de 25 anos, faz doutorado de arquitetura na Unicamp e também acredita que a segurança da universidade é suficiente. “Penso que as câmeras são muito ruins, porque tiram a privacidade e a liberdade da pessoa. O controle extremo pode prejudicar o aproveitamento das atividades acadêmicas”, comenta. O estudante defende que campanhas estudantis e o controle ativo dos alunos sob o campus são capazes de garantir a segurança da universidade. Outra estratégia para evitar a insegurança, segundo ele, seria investir na iluminação das ruas.
Já a doutoranda de química Lia Beraldo da Silveira Balestrin, de 24 anos, é a favor da PM no campus. “Tenho uma amiga que foi assaltada às dez da manha, entrando no carro. O homem fingiu que ia pedir uma informação, mas na verdade, a sequestrou até o banco, a obrigou a sacar dinheiro e fugiu”. A estudante disse que vê as rondas da polícia comunitária, mas acha que o sistema que existe não é suficiente para garantir a segurança. “Teria que aumentar o número de policiais e câmeras sim, porque aqui também têm muitos casos, mas não adianta colocar várias câmeras e não ter ninguém fiscalizando e acompanhando as imagens”. Lia não consegue caminhar pela universidade sem sentir medo e, durante a noite, só anda em grupos.

Fonte: Correio Popular